Blocos paralelipipédicos, em mármore cinza e lioz rosa, pertencentes ao proscaenium, recuperados durante a campanha de escavação arqueológica do Teatro romano de Lisboa em 1965-1967. Este muro que limitava a Norte o palco era constituído por nove exedrae, três semi-circulares e seis rectangulares. As cores das pedras que compunham este muro alternavam entre a cor cinza e a rosa. Na parte superior destas pedras, e abrangendo os cinco nichos centrais encontra-se uma inscrição, gravada numa só linha, cujo texto não chegou completo aos nossos dias.
No entanto, é possível ter uma ideia segura do que seria o texto completo:
NERONI CLAVDIO DIVI CLAVDI F(ilio) GERMANICI [C]AESAR[I]S [NEP(oti) TIBERII CA]ESARIS [PRON(epoti) DIVI AVG(usti) ABN(epoti) CAESARI] GERMANICO PONT(ifici) MAX(imo) TRIB(unicia) POT(estate) III IMP(eratori) III CO(n)S(uli) DESIGNATO III PROSCAENIVM ET ORCHESTRAM CVM ORNAMENTIS AVGVSTALIS PERPETVVS C(aius) HEIVS PRIMVS.
Ou seja: A Nero Cláudio, filho do divino Cláudio, neto de César Germânico, bisneto de Tibério César, trineto do divino Augusto! Ao César, Augusto, Germânico, Pontífice Máximo, investido no Poder Tribunício pela 3ª vez, Imperador pela 3ª vez, consul pela 2ª vez e designado para a 3ª vez. Este proscaenium e a orquestra, com ornamentos, o augustal perpétuo, Caio Heio Primo.
O texto, gravado em letras monumentais quadradas de grande dimensão, seria facilmente legível das bancadas e portanto acessível a todo o público. O teor da mensagem justifica-o, já que serve a ideologia e a propaganda imperiais, ao mesmo tempo que prova o empenhamento dos notáveis locais nessa estratégia. Explicitamente, recorda-se o embelezamento do edifício, a pessoa que pagou a renovação e dedica-se tudo isso ao imperador em exercício, recordando também os seus antepassados divinizados e as suas glórias presentes materializadas em títulos honoríficos e cargos públicos, indicações que permitem datar com precisão a inscrição e as obras: 57 d.C.
Há ainda todo um leque de informações implícitas não menos importantes: propagandeia-se o chefe de Estado e o abastado notável local que pagou as obras de renovação, um liberto que subiu ao topo da carreira pública: é seviro augustal perpétuo, ou seja, é uma espécie de magistrado com funções religiosas muito específicas de culto aos imperadores divinizados.