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O que se conhece do antigo Teatro de Olisipo 
 
 

Entre 1964 e 1967 as intervenções no monumento, realizadas por D. Fernando de Almeida e Irisalva Moita, coincidiram com a parte mais importante e central do Teatro: a zona do proscaenium  - muro de delimitação entre o palco (pulpitum) e a zona dos espectadores -; grande parte da orchaestra (espaço semicircular defronte do proscaenium); o início das bancadas e parte do aditus maximus nascente (entrada máxima ou principal). Grande parte desta área havia sido registada nos finais do séc. XVIII pelo arquitecto Francisco Xavier Fabri.

A continuação dos trabalhos veio confirmar ser este o espaço onde as estruturas arqueológicas se encontravam melhor preservadas. Importa realçar os sistemas construtivos então identificados, onde se destaca a utilização intensiva do opus caementicium, o que é bem visível no maciço Norte do único aditus maximus até agora colocado à vista. O revestimento a opus signinum da zona inferior ao palco, de grande qualidade, oferece uma superfície homogénea, com meia cana a estabelecer a ligação ao muro do proscaenium. Ainda no aditus, mas agora no maciço Sul do original arco, o emprego do opus quadratum com almofadado pronunciado, indica-nos o revestimento original desta estrutura, ilustrando a multiplicidade de aparelhos então empregues e atestando uma hábil utilização de técnicas e materiais com o recurso à matéria-prima disponível.

O facto desta parte inferior da cavea ter aproveitado o afloramento rochoso natural, nele encaixando os degraus inferiores das bancadas, testemunha um pragmatismo e rapidez executiva habitual neste tipo de construções. Este facto levou a que Irisalva Moita indicasse uma influência grega para esta edificação, não apenas pelo encaixe da construção na colina (1970, p. 13) mas, de igual modo, pelo facto desse fundo grego estar igualmente atestado numa inscrição encontrada no teatro, entretanto desaparecida, mas registada por Fabri nos seus levantamentos, onde se mencionam vários libertos com cognomes gregos mas escritos em alfabeto latino (SILVA, 1944, p. 176-178). Discordando desta interpretação, pensamos que este sistema construtivo - que se conjuga com um sistema artificial composto por muros radiais e semiconcentricos suportando os degraus da parte superior da cavea - poderá situar-se entre o 1º e  2º sistemas estruturais dos espaços cénicos definidos por Ramallo Asensio que os contextualiza cronologicamente entre o terceiro quartel do séc. I a.C e os finais do séc. I a.C. (RAMALLO ASENCIO, et alli, 1993, p. 81). Ainda que pensemos que estruturas tão complexas dificilmente possam ser enquadradas temporalmente por limites tão estritos, é um facto que os sistemas construtivos evidenciados no teatro de Lisboa - onde ressalta o emprego intensivo do opus caementicium conjuntamente com silharia esquadriada - se integram nos preceitos construtivos mais habituais de época republicana do que, verdadeiramente, nos sistemas empregues em época imperial (CORZO SÁNCHEZ, 1993, p. 135). A estes indícios, no entanto, apenas em 1989 se teria acesso, como adiante veremos, já que só com a descoberta das estruturas pertencentes à infra-estrutura da cavea se poderia procurar influencias ou estabelecer comparações, tendo sido impossível a Irisalva Moita chegar a tais conclusões.

Importa de igual modo referir outras áreas do teatro exumadas neste primeiro período da década de 1960. A orchaestra, em quase toda a sua extensão, foi colocada a descoberto, assim como os primeiros degraus das bancadas - parte correspondente à imma cavea. O espaço semi circular da orchaestra ainda ostentava, na altura da descoberta, algumas das pedras que originalmente a revestiam. Apesar de muito poucas se terem conservado, os negativos que se preservaram na argamassa subjacente permitiram, aquando do levantamento realizado pelo Instituto Arqueológico Alemão entre 1985/1988, a reconstituição da sua planimetria. O desenho assim delineado evidencia grande proximidade com a orchaestra do teatro de Mérida, correspondendo esta a um embelezamento posterior ao da edificação do teatro. O que actualmente conhecemos do espaço emeritense corresponde à renovação que o mesmo sofreu em época do imperador Cláudio, altura em que a orchaestra é repavimentada e é empregue a ordem coríntia na frons scaenae (TRILLMICH, 1993, p. 113-123).

Os trabalhos arqueológicos desenvolvidos por Irisalva Moita não se prolongaram para Norte dada a permanência da fachada dos antigos edifícios que tinham frente para a Rua da Saudade. Essa estrutura continuava a desempenhar a dupla função de resguardo das ruínas e delimitação do recinto então em escavação, bem como o de suporte da cobertura provisória que então havia sido colocada Entre 1989 e 1992 os trabalhos desenvolveram-se na parte Norte do monumento, coincidindo com parte das bancadas. A intervenção neste local permitiu concluir que as zonas situadas a nível mais elevado se encontravam mais destruídas, sendo quase residuais alguns dos vestígios então colocados a descoberto. É importante referir que muitas das estruturas exumadas na ocasião, correspondiam a antigas edificações dos sécs. XVII e XVIII, destruídas pelo terramoto de 1755, essencialmente habitações que se desenvolviam ao longo da antiga Rua da Parreirinha que, antes de 1755, atravessava este espaço em sentido SE/NW. Deste modo, os muros em alvenaria que hoje se podem observar passando pelo passadiço metálico que constitui actualmente a Rua da Saudade, os quais se dispõem em posição oblíqua à referida passagem - correspondem a estruturas habitacionais dos sécs. XVII/XVIII destruídas pelo terramoto de 1755. Algumas aproveitam alguns elementos estruturais da infra-estrutura do teatro, enquanto outras se apoiam sobre elas. O aspecto mais importante desta campanha de escavações foi, como acima mencionámos, a descoberta de alguns dos muros - radiais e semiconcêntricos - que constituíam a infra-estrutura das bancadas, bem como um dos vomitoria (abertura de acesso) das bancadas. As estruturas encontradas permitiram concluir por uma estrutura artificial realizada em opus caementicium com diversos muros que se entrecruzavam perpendicularmente e sobre os quais se apoiariam os degraus que constituiriam as bancadas. Infelizmente a área disponível a intervencionar não logrou descobrir o limite do espaço cénico, na sua parte Norte, ou seja, na área onde se localizará o muro períbolar do teatro, o qual encerrará externamente as bancadas. Uma estrutura parcialmente colocada a descoberto no canto NE da área então escavada levou a interpretá-lo como tal, mas o facto de desconhecer-mos a sua totalidade, impede-nos uma interpretação linear da sua função, desconhecendo-se, assim, a dimensão total do monumento.

Um outro aspecto a salientar nestas campanhas foi a detecção de uma pequena habitação atribuível aos sécs. V/VI, instalada entre os muros do vomitorium acima referido, a qual reaproveita materiais anteriores e que permite datar a época de desactivação do teatro e consequente alteração funcional (DIOGO, 1993, p. 222 e 224). Com efeito, nesta ocasião já o monumento havia abandonado a sua função enquanto espaço cénico. A ideia, defendida por alguns autores (CASTILHO; 1935, p. 163; ALARCÃO, 1982, p. 287), de que este monumento se encontraria ainda visível no séc. XIV é, quanto a nós, errónea, facto para o qual já em 1994 havíamos chamado a atenção (FERNANDES, p. 239-242). Com efeito, numa das colectâneas medievais dos milagres de S. Vicente, concretamente na que se conserva na Biblioteca Nacional, da autoria do chantre Estêvão da Sé de Lisboa, são fornecidas informações nesse sentido. Refere-nos o mestre-de-obras que “… só com extrema dificuldade e com grandes dispêndios conseguiam em Lisboa pedras de cantaria” (NASCIMENTO; SAÚL, 1988, p. 51). Sendo este documento atribuível à segunda metade do séc. XII confirma-se o facto de, por essa altura, não existir pedra disponível nas redondezas da Sé Catedral. Se, em local tão próximo quanto o teatro, houvesse matéria-prima à vista certamente que a mesma teria sido aproveitada.

Pensamos, deste modo, que o teatro terá progressivamente sido encoberto e envolvido pela malha urbana que paulatinamente foi crescendo sobre ele, tendo algumas das suas infraestruturas sido reutilizadas como alicerce das novas construções, o que terá ditado o futuro urbanismo do local, situação que vem sendo confirmada pelos dados aportados pelos recentes trabalhos que, desde 2001, temos vindo a realizar.

A intervenção arqueológica levada a cabo em 2001 no nº 3-a da Rua de S. Mamede ao Caldas (núcleo da “casa do guarda”), bem como em 2005 e 2006 na área contígua correspondente ao nº 3-b (pátio anexo da mesma rua), permitiram confirmar o intenso reaproveitamento posterior das estruturas do antigo teatro.

A estrutura mais importante então exumada foi a do postcaenium, ou seja, a estrutura tardoz que delimitava a Sul o espaço cénico, correspondendo ao enorme muro que suportaria a frente cénica. Não se trata, portanto, da fachada de tipo palaciano, ricamente decorada com dois ou três andares de colunas e respectivos entablamentos - que muito provavelmente permanece ainda sob a actual rua -  e que constituiria a fachada com frente para o público - mas sim da estrutura que a suportaria. As fachadas Norte dos edifícios da Rua de S. Mamede ao Caldas aproveitaram este muro como alicerce, o que é visível em toda a extensão da área intervencionada.

Em 2001, para além de um troço da estrutura do postcaenium acima mencionado, localizado a Norte e sobre o qual foi edificada a actual parede oitocentista da fachada (Rua de S. Mamede nº 3-a e 3- b), foram exumadas várias estruturas, atribuíveis aos sécs. XVI/XVII, que se relacionam com o antigo Celeiro da Mitra. Os múltiplos entulhos que cobriam estas estruturas e que balizam a época da sua destruição/abandono são resultado do terramoto de 1755.

Infelizmente não possuímos informações substanciais sobre o celeiro. O antigo Tombo de 1755 de José Valentim de Freitas no qual se apresentam as dimensões das propriedades da cidade logo a seguir ao terramoto, é omisso quanto a este edifício, referindo que “O Aljube e o Celeiro estão distinctos e habitados”. Terá sido o facto de continuarem habitados e certamente não evidenciarem grande ruína, que ditou a ausência de medições de ambos os edifícios. Os escombros detectados sobre as estruturas do celeiro indicam que toda a área, que apresenta desníveis profundos, foi integralmente preenchida pelos escombros resultantes do sismo sobre os quais foi construída uma calçada em rampa composta por largos degraus, estabelecendo a ligação entre o antigo Beco por Detrás do Celeiro da Mitra - calçada detectada na escavação, que foi desactivada depois do terramoto - com a futura Rua de S. Mamede ao Caldas. Esta pequena artéria foi realizada com o objectivo de vencer o grande desnível que aí existia e, ao mesmo tempo, de encontrar uma solução para os múltiplos escombros que preenchiam o local. Pode, porventura concluir-se que esta “calçada rampeada”, certamente de carácter provisório, teve como principal objectivo o de esconder, subjacentemente, os escombros resultantes da ruína e posterior derrube do edifício que identificámos como sendo o Celeiro da Mitra.

Associadas a esta antiga construção quinhentista detectaram-se ainda as seguintes estruturas: uma escada articulada em dois lanços separados por um patim que reutiliza pedras de embrechados; um pavimento em seixo rolado que interpretamos como o antigo “Beco do Aljube por Detrás do Celeiro da Mitra”; muros de orientação sensivelmente N/S que adossam, a Norte, ao muro do postcaenium do teatro. Estas estruturas podem, actualmente, ser observadas in situ, constituindo uma das áreas do Museu do Teatro Romano. Como já referimos, nas campanhas de 2005 e 2006 foi removido o alicerce da parede Este da “casa do guarda”, e foi escavado, quase na sua totalidade, o pátio do nº 3-b) da Rua de S. Mamede. A estrutura do postcaenium descoberta no decurso de 2001 no núcleo da “casa do guarda” prolongou-se para Este, atingindo praticamente todo o comprimento da área do pátio. Atingiu-se um comprimento total de 20,70 m, sendo que 8,76 m haviam sido colocados a descoberto em 2001 e o restante foi exumada entre 2005 e 2006.

(…)Trata-se de uma estrutura impressionante, quer pela dimensão que ostenta quer pela sua solidez, evidenciando uma organização estrutural mista que alia o opus quadratum, em aparelho isódomo, com o opus incertum.

Bibliografia citada

ALARCÃO, Jorge, “O Teatro Romano de Lisboa”, El Teatro en la Hispania Romana (Actas del Simposio), Badajoz, 1982, p. 287-302

CASTILHO, Júlio de, Lisboa Antiga, vol. I, ed. C.M.L., Lisboa, 1935, p. 158-176

CORZO SÁNCHEZ, R., “El teatro romano de Cádiz” Cuadernos de Arquitectura Romana - Teatros Romanos de Hispânia, Universidad de Múrcia, Colégio Oficial de Arquitectos, Múrcia 1993, p. 133-140

DIOGO, A. M. Dias, “O Teatro romano de Lisboa. Notícia sobre as actuais escavações”, Cuadernos de Arquitectura Romana: Teatros Romanos de Hispânia, vol. 2, Universidade de Múrcia, Múrcia, 1993, p. 217-224

FERNANDES, Lídia, "Teatro Romano de Lisboa: novos elementos para a sua história no período medieval", Actas das V Jornadas Arqueológicas da Associação dos Arqueólogos portugueses, Museu do Carmo 20 a 22 de Maio, Lisboa, 1993, p. 239-242

NASCIMENTO, Aires A.; GOMES, Saúl, S. Vicente de Lisboa e seus Milagres Medievais, Ed. Didaskalia, Lisboa, 1988

RAMALLO ASCENSIO, S.; MARTÍN MORO, P.; RUIZ VALDERAS, E., “Teatro Romano de Cartagena. Una aproximación preliminar”, Teatros Romanos de Hispânia, Cuadernos de Arquitectura Romana, vol. 2, Múrcia, 1993, p. 51-92

SILVA, A Vieira da, Epigrafia de Olisipo, ed. Câmara Municipal de Lisboa, Lisboa, 1944

TRILLMICH, Walter, “Novedades en torno al programa iconografico del teatro romano de Mérida”, Actas de la I Reunion sobre Escultura Romana en Hispânia, Museo Nacional de Arte Romano de Mérida, Mérida, 1993, p. 113-123


Planta do Museu
A - Museu do Teatro Romano: área de exposição permanente
B - Área de exposição outras ruínas
C - Área de exposição de escavação em curso com estrutura do "postcaenium" do Teatro
C - Ruínas do Teatro romano
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